sábado, 1 de agosto de 2015

A primeira “A Juventude de Blueberry”



A primeira “A Juventude de Blueberry”

Por algumas décadas, nessa parte, também na França e na Bélgica, é vinda a moda de criar séries paralelas àquelas normais de personagens famosos, similarmente a quanto acontece nos Estados Unidos com os super-heróis de maior sucesso. De fato, são multiplicadas as séries de Masque Rouge, John Difool, Thorgal, Lanfeust, Barbe-Rouge, XIII e Alix. Mas é a Blueberry que cabe o triunfo de ter sido o primeiro a inaugurar essa moda na Bande Dessinée, com a série intitulada La Jeunesse de Blueberry, que repercorre os anos da juventude ilustrando como e quando entrou a fazer parte do exército nortista.

No início, se tratava de algumas histórias breves, escritas por Jean-Michel Charlier e desenhadas por Jean Giraud, publicadas em formato “digest”, ou livreto, para os nove números do suplemento trimestral Super Pocket Pilote, publicados de 1968 a 1970.










Estruturadas em pranchas com 6 vinhetas, impressas em preto e branco (salvo Tonnerre sur la Sierra e Double jeu) foram em seguida coloridas, remontadas e adaptadas para três volumes da série principal: La Jeunesse de Blueberry (1975), Un Yankee nommé Blueberry (1978) e Cavalier Bleu (1979), cada um dos quais contendo três histórias de 15 a 16 páginas.








A ação se desenrola durante a Guerra de Secessão americana, de 1861 ao outono de 1863, exceto na última, Tonnerre sur la Sierra, que se desenvolve durante a sua permanência em Forte Navajo, por conseguinte, fora do período da juventude de Blueberry. Em tais histórias, os autores revelam eventos do passado do mais turbulento tenente alistado na Cavalaria do Exército dos Estados Unidos. De fato, no curso das histórias, descobrimos como um Mike Steve Donovan, escravista filho do Sul, entra a fazer parte do exército nortista, fazemos o conhecimento com a primeira mulher da sua vida, Harriet Tucker, como se quebra o nariz graças ao General Dodge e de onde deriva o seu apelido Blueberry (mirtilo), em prática, as suas origens!








Tratando-se de histórias breves, a trama corre veloz, não permitindo ao grande Charlier de desenvolver em profundidade as suas ideias geniais, porém, no conjunto, consegue exprimir uma ideia aceitável sobre os transcursos do jovem Mike. Obviamente, não faltam os contínuos cortes de cena, em cujos o escritor belga era um mestre.








A tal propósito, na entrevista publicada no livro Jean-Michel Charlier vous raconte... (Le Castor Astral, 2013), Charlier afirma que ele e Giraud deviam responder às perguntas dos leitores sobre o nariz partido do herói, sobre sua permanência no exército, ele que, não obstante a coragem, não tinha nenhuma qualidade de bom soldado, o porquê de um nome ridículo de mirtilo. Então, veio-lhes a ideia de construir um passado para o herói e de publicá-lo em Super Pocket Pilote. A ideia é acolhida com entusiasmo pelo artista que decide utilizar um estilo gráfico diverso para essa série, intitulada La Jeunesse de Blueberry.

Para tais histórias, Giraud tem utilizado uma grafia porventura um pouco chocante para os seus habituais leitores, porque muito simplificada, quase caricatural, em claro contraste com aquela por ele utilizada na série oficial, uma ulterior demonstração da extraordinária capacidade desse grande artista da história em quadrinhos mundial.




Histórias breves

1 - Tonnerre sur la sierra
Super Pocket Pilote 1, de 01/07/1968 (14 p.)
Album 3 - Cavalier Bleu (Dargaud Éditeur, 1979)

- Tuoni sulla Sierra (Tempesta sulla Sierra)
Superalbo Audacia 6, Mondadori Editore, 1970
L'Eternauta Presenta 180, Comic Art, 1998
Skorpio, no nº 34 de 2013, Editoriale Aurea
(volume) Alessandro Editore, 2014
Collana Western 18, Gazzetta dello Sport, 2014




2 - Le secret de Blueberry
Super Pocket Pilote 2, de 01/10/1968 (16 p.)
Album 1 - La Jeunesse de Blueberry (Dargaud Éditeur, 1975)

- Il segreto di Blueberry
Superalbo Audacia 5, Mondadori Editore, 1970
Zack Avventura, Corriere della Sera, 1974
L'Eternauta Presenta 179, Comic Art, 1998
I Maestri del Fumetto 23, Il Sole 24 Ore, 2009
(volume) Alessandro Editore, 2012
Skorpio, do nº 24 ao nº 25 de 2013, Editoriale Aurea
Collana Western 17, Gazzetta dello Sport, 2014


3 - Le pont de Chattanooga
Super Pocket Pilote 3, de 03/04/1969 (16 p.)
Album 1 - La Jeunesse de Blueberry (Dargaud Éditeur, 1975)

- Il ponte di Chattanooga
Superalbo Audacia 1, Mondadori Editore, 1969
Zack Avventura, Corriere della Sera, 1974
L'Eternauta Presenta 179, Comic Art, 1998
I Maestri del Fumetto 23, Il Sole 24 Ore, 2009
(volume) Alessandro Editore, 2012
Skorpio, do nº 25 ao nº 26 de 2013, Editoriale Aurea
Collana Western 17, Gazzetta dello Sport, 2014


4 - 3000 mustangs
Super Pocket Pilote 4, de 12/06/1969 (16 p.)
Album 1 - La Jeunesse de Blueberry (Dargaud Éditeur, 1975)

- 3.000 mustangs (3.000 cavalli) (La giovinezza di Blueberry)
Superalbo Audacia 2, Mondadori Editore, 1969
L'Eternauta Presenta 179, Comic Art, 1998
(volume) Alessandro Editore, 2012
Skorpio, do nº 26 ao nº 27 de 2013, Editoriale Aurea
Collana Western 17, Gazzetta dello Sport, 2014




5 - Chevauchée vers la mort
Super Pocket Pilote 5, de 23/10/1969 (16 p.)
Album 2 - Un Yankee nommé Blueberry (Dargaud Éditeur, 1979)

- Cavalcata verso la morte
Superalbo Audacia 3, Mondadori Editore, 1969
L'Eternauta Presenta 181, Comic Art, 1998
(volume) Alessandro Editore, 2013
Skorpio, no nº 29 de 2013, Editoriale Aurea
Collana Western 17, Gazzetta dello Sport, 2014


6 - Chasse à l’homme
Super Pocket Pilote 6, de 25/12/1969 (16 p.)
Album 2 - Un Yankee nommé Blueberry (Dargaud Éditeur, 1979)

- Caccia all'uomo
Superalbo Audacia 4, Mondadori Editore, 1970
L'Eternauta Presenta 181, Comic Art, 1998
(volume) Alessandro Editore, 2013
Skorpio, no nº 30 de 2013, Editoriale Aurea
Collana Western 17, Gazzetta dello Sport, 2014


7 - Private M.S. Blueberry
Super Pocket Pilote 7, de 19/03/1970 (16 p.)
Album 2 - Un Yankee nommé Blueberry (Dargaud Éditeur, 1979)

- Attentato al treno (Volontario Mike Steve Blueberry)
Superalbo Audacia 4, Mondadori Editore, 1970
L'Eternauta Presenta 181, Comic Art, 1998
(volume) Alessandro Editore, 2013
Skorpio, no nº 31 de 2013, Editoriale Aurea
Collana Western 17, Gazzetta dello Sport, 2014




8 - Chasse à l’homme
Super Pocket Pilote 8, de 25/06/1970 (16 p.)
Album 3 - Cavalier Bleu (Dargaud Éditeur, 1979)

- Caccia all'uomo
Superalbo Audacia 5, Mondadori Editore, 1970
L'Eternauta Presenta 180, Comic Art, 1998
Skorpio, no nº 32 de 2013, Editoriale Aurea
(volume) Alessandro Editore, 2014
Collana Western 18, Gazzetta dello Sport, 2014


9 - Double jeu
Super Pocket Pilote 9, de 29/10/1970 (16 p,)
Album 3 - Cavalier Bleu (Dargaud Éditeur, 1979)

- Doppio gioco
L'Eternauta Presenta 180, Comic Art, 1998
Skorpio, no nº 33 de 2013, Editoriale Aurea
(volume) Alessandro Editore, 2014
Collana Western 18, Gazzetta dello Sport, 2014

Fonte: Blog Zona BeDé, Itália.

La prima giovinezza di Blueberry © 2014 Zona BeDé 

A série "Blueberry" foi criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud.
La Jeunesse de Blueberry © Jean-Michel Charlier / Jean Giraud - Dargaud Éditeur

Afrânio Braga

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terça-feira, 14 de julho de 2015

Grand Canyon

Grand Canyon, Arizona, Estados Unidos.


  Grand
Canyon
         A erosão que virou espetáculo natural


O Grand Canyon, localizado no noroeste do Estado do Arizona, nos Estados Unidos, é o maior cânion do mundo, com 443 quilômetros de extensão. Escavado pelas águas coloridas do Rio Colorado ao longo de 6 milhões de anos, o Grand Canyon tem fendas verticais que chegam a incríveis 2.100 metros de altura. Em alguns pontos, fecha-se numa garganta estreita com menos de 200 metros entres seus paredões. Em outros, expande-se para que sua fenda atinja os 29 quilômetros de largura.

O Grand Canyon é uma área de importante interesse geológico, pois a erosão de seus paredões revelou marcas de três das quatro Eras geológicas da Terra. Outro atrativo são as areias do lugar, que podem assumir cores e tonalidades diferentes de acordo com a composição do solo e a incidência da luz.

A região do cânion já era habitada por índios quando chegaram os primeiros exploradores europeus, em 1540. No entanto, a primeira expedição bem-sucedida pelas águas do Colorado só aconteceu em 1869. Desde então, a beleza do cânion atrai um número crescente de visitantes. Em 1919, foi criado um parque nacional para proteger a paisagem, o Rio Colorado e os animais que vivem na região, que incluem o condor.

Hoje, o lugar recebe cerca de 5 milhões de turistas por ano. Além de contemplar a paisagem, os visitantes podem praticar atividades que vão da simples caminhada por suas trilhas que cruzam o cânion até o rafting pelo Rio Colorado, rapel pelas paredes do cânion e balonismo.


Horseshoe Band, Rio Colorado, Arizona.

O rio escultor

O Rio Colorado é o principal responsável pelo aparecimento do Grand Canyon. Suas águas rápidas, fruto principalmente do degelo das Montanhas Rochosas, escavaram a superfície do Deserto do Arizona ao longo de milhões de anos até constituir as forma que se veem hoje.

O rio nasce no Estado homônimo e atravessa todo o Grand Canyon até desembocar no Oceano Pacífico. Seu nome, Colorado, vem das diversas tonalidades que suas águas assumem ao longo do ano, indo do verde escuro, no período da seca, até o vermelho na época das chuvas.


Mapa do Grand Canyon National Park.


Mapa do Grand Canyon.


O Rio Colorado visto de Toroweap, Grand Canyon National Park.

Fonte: Coleção Maravilhas da Terra. Grandes Paisagens. São Paulo, SP, Brasil: Editora Peixes, 2003.

Coleção Maravilhas da Terra. Grandes Paisagens © Editora Peixes 2003

Fontes das imagens: Wikimedia: Grand Canyon, Arizona, Estados Unidos. Epochtimes: Horseshoe Band, Rio Colorado, Arizona. Nps: Mapa do Grand Canyon National Park. Azraft: Mapa do Grand Canyon. Adam Schallau: O Rio Colorado visto de Toroweap, Grand Canyon National Park.

N. C.: As imagens expostas no blog não constam da coleção da Editora Peixes.


Blueberry tocando violão no Grand Canyon, Arizona.

Ilustração integrante do portfólio “Blueberry”, do artista Mœbius (Jean Giraud).
Publicação em edição limitada de 1500 exemplares, com impressão litografada em Cartridge Paper, dimensões de 32 x 25 cm, em 1983. Uma edição limitada impressa com o essencial de Blueberry, famoso personagem western de Jean Giraud.

Fonte: illustrationartgallery.

Portfolio Blueberry Jean Gir © Jean-Michel Charlier, Jean Giraud, Éditions Gentiane 1983



Blueberry “Country & Western”, uma imagem descoberta no Portfolio “Blueberry”, publicado por Gentiane, em 1983, reprisada, em cartão postal, em cores, por Aedena, em 1984.

Fonte: Mister Jacq.

Blueberry carte postale © Jean-Michel Charlier, Jean Giraud, Éditions Aedena 1984



O local, no Grand Canyon, que inspirou Jean Giraud na ilustração de Blueberry tocando violão no famoso cânion.

Fonte da imagem: Las Vegas Grand Canyon Tours.

A série “Blueberry” foi criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud.
Blueberry © Jean-Michel Charlier, Jean Giraud, Dargaud Éditeur

Afrânio Braga

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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Blueberry : La Jeunesse de Blueberry

Blueberry : La Jeunesse de Blueberry

“La Jeunesse de Blueberry” tem contado a origem nos suplementos trimestrais da revista “Pilote”: os “Super Pocket Pilote”, entre 1968 e 1970. As séries como “Barbe-Rouge”, “Blueberry” e “Tanguy et Laverdure” são vistas tratadas sob o ângulo das aventuras de juventude dos heróis. O desenhista de “Blueberry”, Jean Giraud, tinha começado, desde o nº 1 de “Super Pocket Pilote”, produzindo uma história, cuja ele tinha escrito o roteiro. Jean-Michel Charlier retoma a mão no número 2 e contará no total oito histórias se desenrolando durante a Guerra de Secessão. A notar que duas histórias têm o mesmo título: “Chasse à l’homme”. Um descuido dos autores... Essas nove histórias (contando aquela escrita por Jean Giraud) são publicadas nos anos 1970 sob forma de álbuns (três álbuns ao todo).

2 – “Le Secret de Blueberry”
3 – “Le Pont de Chattanooga” 
4 – “3000 mustangs” 
5 – “Chevauchée vers la mort” 
6 – “Chasse à l’homme” 
7 – “Private MS Blueberry” 
8 – “Chasse à l’homme” 
9 – “Double jeu”


É na última vinheta da narrativa “Le Secret de Blueberry” (“Super Pocket Pilote” nº 2, outubro de 1968) que o jovem Mike Donovan se escolhe um patronímico para escapar de um apuro. Ele improvise e encontra... Blueberry.



Uma dezena de anos mais tarde, Jean-Michel Charlier prossegue a narração de “La Jeunesse de Blueberry”, mas com um novo desenhista, o neozelandês Colin Wilson, e em histórias de longo fôlego e não mais as narrativas completas de 16 páginas como nos “Super Pocket Pilote”. As duas histórias, que Jean-Michel Charlier tem escrito inteiramente, são pré-publicadas no quotidiano “France Soir” em 1985 e 1987 (o roteirista falece então quando ele tem escrito três quintos de uma terceira aventura, “Le Raid infernal”, que será terminada por François Corteggiani).

“Les Démons du Missouri”
“Terreur sur le Kansas”
“Le Raid infernal”


Le Secret de Blueberry


Extrato da prancha 15 de “Le Secret de Blueberry”, não repetido em álbum.


Le Pont de Chattanooga


As duas primeiras tiras da primeira prancha de “Le Pont de Chattanooga”, tais como elas se apresentaram em “Super Pocket Pilote” nº 3 (março de 1969). Abaixo, capa finlandesa do primeiro álbum “La Jeunesse de Blueberry”.















3000 mustangs


Abaixo e ao lado, duas imagens originais figurando em “Super Pocket Pilote” nº 4, de junho de 1969, mas que serão modificadas pelo desenhista para a publicação em álbum.



Chevauchée vers la mort
                                       













A prancha 1 de “Chevauchée vers la mort”, tal qual ela tem sido publicada, completa e não alargada, em “Super Pocket Pilote” nº 5 (setembro de 1969).


Chasse à l’homme


A primeira imagem da narrativa “Chasse à l’homme” (a primeira narrativa assim intitulada, aquela que tem sido publicada em “Super Pocket Pilote” nº 6).


Private MS Blueberry


Um extrato da prancha 13 da narrativa “Private MS Blueberry”, em “Super Pocket Pilote” nº 7 (março de 1970).


Chasse à l’homme


Em “Super Pocket Pilote” nº 8 (junho de 1970), o começo de outra narrativa intitulada, por descuido, “Chasse à l’homme”, como em “Super Pocket Pilote” nº 6... Os dois títulos em duplicação não serão mudados quando da publicação em álbuns (volumes 2 e 3 de “La Jeunesse de Blueberry”), muitos anos mais tarde.


Double jeu





As narrativas de “La Jeunesse de Blueberry”, roteirizadas por Jean-Michel Charlier, foram publicadas em preto e branco em “Super Pocket Pilote”, salvo “Double jeu” que tem sido beneficiada da cor. Essa vinheta, proveniente do episódio de “Super Pocket Pilote” nº 6 (“Chasse à l’homme”), em preto e branco na origem, tem sido colorizada, pois ela figura na capa de “Super Pocket Pilote” nº 9 para anunciar o episódio “Double jeu”.

O quadro amarelo é de fato o fundo da capa do pocket, sobre o qual aparecem igualmente as vinhetas (colorizadas para a ocasião) extraídas das histórias em quadrinhos “Tanguy et Laverdure” e “Achille Talon”, outros personagens célebres da publicação.

Les Démons du Missouri


As meia-pranchas 1B e 2A de “Terreur sur le Kansas”, publicadas no quotidiano “France-Soir”, em 1987, não têm sido reprisadas no álbum editado no mesmo ano. Eis, acima, a prancha 2A. As passagens faltantes são concernentes a uma parte do resumo do episódio precedente.


Terreur sur le Kansas


Extrato da prancha 5 de “Terreur sur le Kansas” (acima). Trata-se da colocação em desenho, por Colin Wilson, do roteiro feito, em croquis, por Jean-Michel Charlier (abaixo).


Jean-Yves Brouard
Site: www.jybaventures.net
Blog: http://jybaventures.blogspot.fr 

Blueberry : La Jeunesse de Blueberry © 2004 Jean-Yves Brouard 

Um grande agradecimento a Jean-Yves Brouard, desenhista, fotógrafo, piloto de avião, escritor, roteirista e editor de Bandes Dessinées, especialista da carreira de Jean-Michel Charlier e criador e autor de jmcharlier.com, que gentilmente presenteou o seu artigo Blueberry : La Jeunesse de Blueberry – Blueberry: A Juventude de Blueberry -, publicado em seu site consagrado a Jean-Michel Charlier, o maior roteirista da história em quadrinhos francófona, o Alexandre Dumas da Bande Dessinée.

Afrânio Braga

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sábado, 13 de junho de 2015

“O Restabelecimento de Blueberry” – Entrevista com Jean Giraud

Jean Giraud e Mike Blueberry.


“O Restabelecimento de Blueberry”
Entrevista com Jean Giraud
22 de julho de 2005



Eis, enfim, a conclusão, tão esperada, do ciclo Mister Blueberry, começado por Jean Giraud já há dez anos. O desafio foi imenso, pois se trata de suceder a Jean-Michel Charlier himself, e a ambição de nosso homem, à medida do desafio. Se seu Blueberry tinha, às vezes, desconcertado os leitores, visto que, pregado à cama durante três quartos da narrativa, não iam imaginar até onde esse ciclo anunciaria uma aposentadoria do elegante Mike. “Dust” é 68 páginas de poeira, de barulho, de furor e de ação, como nos grandes momentos da série. E nosso caro velho “Blueb’” é, doravante, sobre os pés, pois se restabelece do luto do falecimento de seu roteirista...


 

 

As capas dos cinco álbuns do ciclo Mister Blueberry, também chamado de ciclo Tombstone e de ciclo OK Corral.


Qual olhar você tem sobre o ciclo Mister Blueberry, agora que ele está acabado?

Eu tinha uma grande ambição para essa história, e eu não estou certo de ter atingido meu objetivo. Dito isso, se deve relativizar esse sentimento, pois toda minha carreira é feita sobre esse modo: uma ambição forte e um resultado um tanto abaixo da imagem original que eu tinha sonhado. Vocês poderiam quantificar essa decepção? ... Hum... ...isso oscila entre 10 e 90%. Dito isso, minha ambição é, sem dúvida, tão desenfreada que chega a 20% de satisfação, isso já não é mal! Como roteirista, é o mesmo esquema. Eu tinha construído a narrativa com antecedência em tudo, me deixando um espaço de liberdade. Eu não queria um roteiro demais “eficaz”, eu tinha desejo de deixar um lugar para as sequências de ambiente, os silêncios, onde não se passava nada de aparente... Eu não sei se eu tenho tido êxito. No final, me parece, um pouco, ter perdido de vista o aspecto iniciador do restabelecimento de Blueberry. Seriam necessárias 20 páginas a mais para melhor desenvolver?


Sua ambição não é mais forte, visto que você tem o trabalho de Charlier para referência?

Eu tenho considerado, sempre, o falecimento de Jean-Michel na sua parte roteirística. Ele tem falecido em um momento dobradiça da vida de Blueberry, ou seja, por ocasião do fim de um ciclo, e eu não poderia ignorar isso, quando eu tenho começado “Mister Blueberry”. Em contrapartida, a consequência, que eu tiro dessa história, é apenas o fato das ferramentas de interpretação, de cujas eu disponho, forçadamente ligadas ao estado de minha percepção e minha experiência pessoal. Eu não queria romper com o trabalho de Charlier, mas eu também não queria o reproduzir, a fim de não me chocar em um muro intransponível, que é o talento próprio de Charlier.


Você acha que existe uma quebra entre seu roteiro e os deles?

Existe, forçadamente, uma dívida à mudança de roteirista, mas, se vocês olharem bem, “Mister Blueberry” é a estrita consequência daquilo que Charlier havia colocado no lugar. No fim de “Arizona Love”, Blueberry apercebe-se que a única coisa que resiste às suas qualidades de homem de ação é o coração de uma mulher. O projeto de vida que ele oferece a Chihuahua Pearl é muito frágil face às ambições dessa mulher extraordinária. Se, até ali, ele tem conduzido tanto de ações heroicas, era sob o golpe de uma pressão exterior; e, ali, pela primeira vez em sua vida, ele toma seu destino na mão e seu projeto não está à altura da mulher que ele deseja. Chihuahua é demais ambiciosa para se resignar a uma vida de proprietária de terras, mesmo com o homem que ela ama. Blueberry é forte, visto que ele é capaz de enfrentar um exército, mas ele é incapaz de construir uma vida de casal? Por outro lado, Mike Steve, fazendeiro e casado, se sai do esquema criado, no seu tempo, por Jean-Michel Charlier, e assina a sentença de morte da série.


Deve ser impossível fazer a perda de um personagem tão forte quanto Chihuahua. Eu imagino que ele cruzará com ela de novo.

Sem vender o pavio, eu já posso dizer a vocês que a noite de amor deles tem deixado vestígios, se vocês perceberem isso que eu quero dizer...


Blueberry por Gir (Jean Giraud), 1996.


A entender você falar assim de Blueberry, nós podemos se perguntar qual lugar ele tem em sua vida.

É um parceiro virtual. Para um jogo, no qual eu invisto ao máximo.


Ele habita você enquanto isso?

Sim, mas tudo isso que eu faço é sempre sustentado por uma grande curiosidade. Então é normal que eu tenha enviado ele a ir muito longe na narrativa de sua vida. Pode-se aproximar meu procedimento daquele de um escritor que, criando os personagens, imagina-lhes uma vida futura tanto quanto uma vida passada, e tudo isso unicamente para justificar suas reações. É somente por esse procedimento que um personagem pode se colocar a viver. E, desde que um criador, qual quer que seja seu modo de expressão, a um personagem que se coloca a viver, ele deve ser generoso com ele.


É isso que Blueberry é: um parceiro que você, às vezes, tem decepcionado em suas reações?

Oh! Sim, certamente. Qual louco! Durante todo o período Charlier, ele é terrivelmente alienado pelo contexto no qual ele tem sido criado. Naquela época, o herói de HQ devia bater contra os ataques exteriores, mas nunca contra ele mesmo. Ele é muito boy scout e um tanto psicorrígido em sua maneira de pegar de frente seus inimigos. Sem a compaixão do roteirista, que tem feito um herói, ele teria fracassado a maioria de seus estratagemas e nunca teria sido o Blueberry vencedor que se conhece. Mesmo se ele tentasse sobreviver e salvar sua pele, ele não se ouve verdadeiramente. É somente nesse último ciclo, onde eu o mostro passivo sobre sua cama de convalescença, que ele começa a se interrogar sobre sua vida. E, pela primeira vez, ele não resiste, mesmo se nós procurássemos matá-lo, isso mostra bem a desordem na qual ele se encontra.


No seu entender, um personagem nunca escapa completamente a seu criador, pois é quando você o retoma em mão que ele se reaproxima mais de você.

Isso não é totalmente verdade. O herói é sempre o representante dos arquétipos da sociedade contemporânea, que eles sejam de narração ou sobre a representação do bem e do mal. No momento onde Blueberry tem sido criado, essas ideias eram muito codificadas e muito rígidas. Vejam Tintin ou Spirou. Hoje, se vê aparecer esquemas muito mais complexos de heróis, que são o resultado de uma evolução do olhar de nossa sociedade sobre si mesma. Pode-se dizer que a geração Pilote, de certa maneira, tem parido a fórceps a HQ francesa para ajudá-la a sair dessas representações. Os personagens procedentes de séries de aventuras, de hoje, têm muito mais profundidade que Blueberry em seus primórdios; e mesmo mais de filosofia e de cultura. É por isso que eu ponho sobre o trabalho de Charlier um olhar muito respeitoso e que, em piscadela à continuidade de seu trabalho, eu tenho introduzido esse jornalista, John-Meredith Campbell (com as mesmas iniciais que Jean-Michel Charlier), encarregado de reportar para seu jornal uma visão do Oeste, conforme a ideia que fazem seus leitores.


O companheiro desse jornalista, o jovem Parker, não lembra, quanto a Charlier, o jovem Giraud iniciando sua carreira em “Fort Navajo”?

Eu não estou me representado conscientemente e eu confesso que é a primeira vez que alguém me diz isso. Mas Parker é, como indica seu nome, um homem para quem tudo passa pelo coração. Esse encontro é para ele uma iniciação. Então sim, é verdade, existe uma relação...


Você pensa ter desconcertado seus leitores pregando Blueberry à cama?

Sim, quando se descobre ele, se é desorientado, mas, diminuindo suas capacidades físicas, eu o conduzi a tornar-se ainda mais heroico que antes, sem ter que dar um lance eternamente sobre os perigos que o ameaçavam do exterior.


Cinco álbuns em dez anos. Você tem reencontrado um ritmo de produção muito sustentado.

Fazia muito tempo que eu não tinha desenhado tanto Blueberry. Mas eu me dou conta também que se lançar em um longo projeto é um trabalho de homem jovem. A partir de certa idade, se começa a colocar as questões sobre sua capacidade em empreender as obras de longo prazo.


Você tem dúvidas sobre seu desejo?

Não, mas todos os desenhistas experientes dirão isso a vocês, se sente o refluxo da energia. Quando eu era mais jovem, eu me perguntava como, sob pretexto da idade, se poderia abdicar o desenho e perder o feeling! Pronto! Hoje, eu tenho minha resposta. Tenta-se sempre fazer o seu melhor, mas, um dia, percebe-se que esse “melhor” é de pior em pior.


O quê é isso que você chama um desenho “não formidável”?

Um desenho deve se sonhar antes de se desenhar, se deve sentir um apetite feroz em encontrar as maneiras inéditas de colocar aquilo que se quer fazer ver... ...mas quando o sonho desintegra-se, ei, bem, se tem um desenho “não formidável”.


É sua busca?

Parece-me que todos os desenhistas que sabem bater o imaginário de modo durável são os autores que trabalham ferozmente e não renunciam nunca face às dificuldades a representar o mundo.


Você tem, no entanto, uma constância fenomenal a propósito de Blueberry, que você desenha desde mais de 40 anos.

Sim, é verdade e eu me deixo ir ao pessimismo, mas, quando eu tenho visto o álbum “Dust” impresso, eu tenho, apesar de tudo, tranquilizado; antes, eu o acho, no final, não mal. Portanto, eu posso assegurar a vocês que eu estava muito angustiado e isso tem durado até ao último momento, notavelmente durante a colocação em cor com Scarlett.


Você nunca tinha conhecido esse sentimento?

... Sim, certamente! No fundo, sempre eu tenho sido mais ou menos. Eu estou nesse estado de dúvidas e de angústia para cada álbum! Somente agora, e eu coloco tudo isso na conta da idade. Eu tenho medo de perder em qualidade de performance e de desejo. Vai ser necessário que eu repita as aulas de perspectiva!


Você falou de um ciclo dedicado ao restabelecimento de Blueberry. Ei-lo sobre os pés. Por conseguinte, ele está preparado para partir a outras aventuras?

Certamente! ... A questão agora é “quando”! Mas sempre eu posso pedir-lhe a resposta no próximo álbum de “Inside Moebius”!


Christelle & Bertrand Pissavy-Yvernault

Fonte: Dargaud Éditeur, Paris, França.

Interview Giraud Jean «La guérison de Blueberry» © Christelle & Bertrand Pissavy-Yvernault, Dargaud Éditeur 2005

N. C.: As imagens expostas, na postagem do blog Blueberry, uma Lenda do Oeste, não constam na entrevista publicada por Dargaud Éditeur.

Imagens: Forum officiel des Éditions Dargaud: Jean Giraud e Blueberry. Dargaud Éditeur: as capas dos cinco álbuns do ciclo Mister Blueberry, também chamado de ciclo Tombstone e de ciclo OK Corral. Stardom Éditeur: Blueberry por Gir (Jean Giraud), 1996.


Estojo “Mister Blueberry. Le Cycle OK Corral”.

Afrânio Braga

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