domingo, 17 de maio de 2026

A inspiração de Denoël para Blueberry e Jimmy McClure

John Wayne e Jeffrey Hunter em um dos cartazes
de “The searchers” - “Rastros de Ódio”, no Brasil.


 
A INSPIRAÇÃO DE DENOËL PARA
BLUEBERRY E JIMMY McCLURE



"Rastros de Ódio" ("The searchers", 1956)


É a obra-prima de John Ford. A revista "New York" o considerou o mais influente filme americano de todos os tempos. O filme foi homenageado por Wim Wenders em "Paris, Texas" e por Martin Scorsese em "Taxi Driver". "Rastros de Ódio" tem interpretações pulsantes e diálogos antológicos. É uma obra cheia de camadas, talvez seja o filme a que mais vezes assisti na vida; cada vez que vejo de novo descubro coisas diferentes. Quando "Cidade Baixa", meu primeiro longa, foi lançado em Londres, eu fui convidado por um jornalista do "Daily Telegraph" a participar da coluna Filmmakers on Film, na qual diretores falam do seu filme preferido. Eu escolhi "Rastros de Ódio", que também era o favorito do jornalista. Para comemorar a coincidência, ele me convidou para fazer um tour pela "cidade baixa" londrina.

Sérgio Machado
Cineasta



Westerns. Cinema Americano por Excelência

“Rastros de Ódio”

“The searchers”, EUA, 1956, 119 minutos
Dirigido por John Ford
Com John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles e grande elenco

O centésimo décimo quinto título da filmografia de John Ford é a mais complexa de suas realizações. Extraído de um romance de Alan Le May, “Rastros de Ódio” acompanha a saga obsessiva de um perdedor amargurado que não acredita em rendições. John Wayne, na nona parceria com John Ford, é Ethan Edwards, o texano desgarrado. Derrotado na Guerra de Secessão, ele volta, qual “irmão pródigo”, ao convívio dos seus depois de vagar pelo México. Um ataque dos comanches arranca de Ethan quase toda a família, inclusive a cunhada Martha (Dorothy Jordan), a quem secretamente amou antes de se alistar nas forças confederadas. Sobrevive apenas a sobrinha Debbie (Lana Wood e Natalie Wood), de aproximadamente 10 anos, raptada.

Uma jornada de reconhecimento e perda da alma, com duração aproximada de cinco anos — pontuada de idas e vindas na companhia do sobrinho torto, o mestiço Martin Pawley (Jeffrey Hunter) —, leva o individualista e racista Ethan a uma incansável e interminável procura por seu único laço de sangue. O personagem é um equivalente a Ulisses. Mas ao contrário do personagem de Homero, não terá casa ou mulher para voltar. Como se fosse a contraface do comanche morto que ele profanou e amaldiçoou, ele está condenado a vagar sem rumo certo, entre o vento e a poeira.

Desprestigiado no lançamento, “Rastros de Ódio” ganhou reconhecimento com a passagem dos anos. Entre os primeiros a enaltecer esse filme está o crítico brasileiro Antônio Moniz Viana. Hoje, conta com fãs ardorosos: Martin Scorsese, Paul Schrader, Steven Spielberg, Curtis Hanson, John Milius, Brian De Palma, Clint Eastwood, Jean-Luc Godard, Wim Wenders, George Lucas, além dos falecidos Lindsay Anderson e Akira Kurosawa.

É o mais complexo dos westerns, protagonizado por um John Wayne assustador, como nunca se viu. Esse ator, tão desvalorizado, tem como Ethan Edwards um dos grandes papéis do cinema. O cenário preferido de John Ford, o Monument Valley, originalmente captado em Technicolor e VistaVision pelas lentes de Winton C. Hoch, assume o posto de locação das mais emblemáticas do cinema. Não é um mero pano de fundo ao desenvolvimento da ação. É cenário vivo, espelho revelador da alma atormentada de Ethan.

José Eugênio Guimarães
Cinéfilo





"Ballade pour un cercueil"

Jean Giraud realizou a capa de "Ballade pour un cercueil" ("Balada para um Caixão"), álbum publicado em 1974 pela editora Dargaud, inspirado em uma cena de "The searchers" (“Rastros de Ódio”, título no Brasil; “A Desaparecida”, em Portugal; "La prisonnière du désert", na França), filme de John Ford, lançado em 1956, com John Wayne (Ethan Edwards) e Jeffrey Hunter (Martin Pawley) na pista dos Comanches, que haviam raptado duas sobrinhas de Ethan, de cujas sobreviveu Debbie Edwards, interpretada por Natalie Wood. Na ilustração da capa do volume 15 de “Blueberry”, Mike Blueberry ocupa do lugar de John Wayne e Jimmy Mc Clure aquele de Jeffrey Hunter.



Régis Parenteau-Denoël, em arte Denoël, se inspirou na ilustração da capa do álbum “Ballade pour un cercueil” – “Balada para um Caixão”, título em português -, realizada por Jean Giraud, para fazer o desenho de Mike Blueberry e Jimmy McClure, companheiros de aventura, para o blogue Blueberry, uma lenda do Oeste. O desenhista mudou a posição dos dois amigos mantendo aquelas dos cavalos.



Régis Parenteau-Denoël.

Fontes

 

Textos:

"Rastros de ódio" ("The searchers", 1956), Sérgio Machado, em O cineasta Sérgio Machado elege os 10 melhores filmes do 'contraditório e complexo' John Ford. O Globo, Cultura.

“Rastros de Ódio” - “The searchers”, José Eugênio Guimarães, em Westerns. Cinema Americano por Excelência. Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense – UFF, blog Cine Arte UFF.

"Ballade pour un cercueil" em Inspirações de Charlier e de Giraud para “Blueberry”
artigo do blogue Blueberry.


Imagens:
Do filme “The searchers” (“Rastros de Ódio”): divulgação.
De “Blueberry” tome 15 “Ballade pour un cercueil”: Bedetheque.
A ilustração Blueberry e Jimmy McClure e a fotografia: Régis Parenteau-Denoël.

A série “Blueberry” foi criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud
Blueberry © Jean-Michel Charlier / Jean Giraud – Dargaud Éditeur

© As empresas, os autores e os seus herdeiros legais

Afrânio Braga

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