sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Homenagem a Jean-Michel Charlier em “Spirou”

Homenagem a

Jean-Michel Charlier em “Spirou”



«Um de nossos pilotos não reentrou...»

Morte de um gigante


Página 2: Homenagem a Jean-Michel Charlier



OLÁ, AMIGO!


      Nessa segunda-feira, 10 de julho, a história em
      quadrinhos se encontrou órfã.
      Jean-Michel Charlier não está mais entre nós.
      E todos nós, em “Spirou”, nos sentimos tristes.



Jean-Michel Charlier era uma das mais brilhantes personalidades da História da história em quadrinhos. Doutor em Direito, piloto profissional, jornalista (um genuíno, à procura dos dossiês explosivos), aventureiro até as pontas das unhas, ele era, sobretudo, o roteirista prolífico de séries tornadas clássicas. “Buck Danny”, era ele. “La Patrouille des Castors” também. E “Lieutenant Blueberry”, “Les Chevaliers du ciel”, “Barbe- Rouge”, “Valhardi”, “Jacques Le Gall” e tantas outras que, todas, hoje, devem estar muito sozinhas em seu reino de papel.

Como estão enlutados os seus milhões de leitores e os numerosos amigos que ele tinha na profissão. Esse apaixonado, esse humorista, esse namorado da vida atraiu a estima e a


simpatia de todos aqueles que tiveram a sorte de conhecê-lo. Contador inesgotável, ele cativava pelas numerosas anedotas que ele colheu entorno do mundo. E passar algumas horas em sua companhia era sempre um maravilhoso prazer.

Foi em “Spirou” que ele começou a sua carreira excepcional. Ele acompanhou a história de nossa revista durante mais de trinta anos. Desde que nós soubemos da notícia, nós desejamos prestar-lhe uma homenagem, à qual se juntam todos os colaborados da revista e das Edições Dupuis. É em nome deles que nós queremos transmitir, à sua esposa e aos seus familiares, a nossa emoção e a nossa calorosa simpatia.

A Redação

VER   NOSSO   DOSSIÊ   NAS   PÁGINAS   CENTRAIS





J  E  A  N  –  M  I  C  H  E  L      C  H  A  R  L  I  E  R

UMA VIDA
DE PAIXÕES


Contar Jean-Michel Charlier?
Seriam necessários vários volumes para cercar uma carreira tão excepcional, uma vida tão rica.
Todas duas se desenrolaram, de uma ponta a outra, sob o signo das paixões. Paixão pela aviação, paixão pela aventura, paixão pelas histórias que ele contava, paixão pela vida em todas suas facetas. Como contar tudo isso sem esmorecer?
Deixemos antes falar as imagens.
Escutamos antes testemunhar seus amigos.





É então que tudo começa...

Como se torna roteirista? Desenhando... desde a infância, depois no colégio. E, enfim, na universidade.  E saltando de pés juntos sobre as ocasiões que se apresentam. Em “Libération”, um colaborador da revista “Spirou”, Georges Troisfontaine, procura um desenhista para animar suas rubricas. Jean-Michel Charlier, novato no domínio, corre o risco: propõe-lhe seus serviços. E ele é aceito. Durante vários anos, os leitores de “Spirou” puderam assim se iniciar no modelismo e na aviação graças aos seus desenhos.
É lá que ele encontra certo Hubinon, desenhista e retocador em um quotidiano. A quem o mesmo Troisfontaine propõe “realizar com ele uma epopeia desenhada, colocando em cena os pilotos americanos, então em todo brilho de uma glória sem nuvem” (1). Após algumas pranchas, o roteirista, em falta de inspiração, pede a Charlier para prosseguir essa história, em cuja o personagem principal é um oficial americano chamado... Buck Danny.
A sequência? Vocês a encontrarão nos quarenta e quatro álbuns da série e os quatorze milhões de exemplares vendidos (2).








Uma das numerosas crônicas de aviação ilustradas por Charlier após a Segunda Guerra Mundial. É igualmente ele que realiza os desenhos de todas as embarcações e de todos os aviões dos primeiros álbuns de “Bucky Danny”, Hubinon desenhando o resto dos quadrinhos.
“Para fazer face aos problemas de técnica aeronáutica que nos pôs nosso trabalho”, conta Charlier (1), “nós tivemos, Victor Hubinon e eu, que passar logo nos brevês de piloto de turismo. Nossas magras economias esgotadas, mas apreendidos pela paixão pelo voo, nós decidimos empurrar até ao brevê profissional. Os instrutores custam caro, nós somos, essencialmente, iniciados nas acrobacias aéreas graças a um velho manual da aviação militar belga de antes de 1939. Todo nosso treinamento foi pitoresco. Portanto, uma noite de junho de 1947, únicos de todos os candidatos a concorrer, nós fomos promovidos pilotos profissionais.”









J.-M. Charlier animava a revista “Spirou” através de curtas sequências de histórias em quadrinhos, às vezes relaxantes, mais frequentemente educativas. Ele assinava com um pseudônimo: Flettner.





Victor Hubinon: “Com Charlier, nós tivemos nosso primeiro acidente de avião em oito dias de intervalo. Na mesma época, em um mês de intervalo, nós somos casados e, o roteirista fazendo sempre o trabalho antes do desenhista, ele teve um filho quatro horas antes de mim.” (3)

(1) Uma das numerosas anedotas que conta Charlier nos prefácios da coleção “Tout Buck Danny”, Dupuis.
(2) Quarenta álbuns publicados na Éditions Dupuis, quatro na Éditions Novedi (o quarenta e cinco, desenhado por F. Bergèse, está em curso de elaboração).
(3) Depoimentos recolhidos por Isabelle Forestier e Jean Léturgie, “Les Cahiers de la BD” nº 35, Glénat, 1978.


  
















Doc.: Mitacq


Mitacq (“Jacques Le Gall”, “La Patrouille des Castors”)
“Como todos os bons roteiristas, ele era muito solicitado. Foi por isso que ele me telefonou, uma noite, o roteiro de uma prancha de “Jacques Le Gall” que eu desenhei na mesma noite. De manhã, eu chamei meu irmão e nós partimos à gráfica. Lá, eu coloquei a prancha em cores e meu irmão fez o letreiramento enquanto as máquinas giravam nos esperando.” (2)






O trabalho do roteirista
O roteiro, anotado, recortado e acompanhado de croquis da mão de Charlier, para a prancha 6 de “Passeport pour le Néant”, 21ª aventura de “La Patrouille des Castors” e o original desenhado por Mitacq.
















Goscinny e Charlier vistos Greg

Jidéhem (“Sophie”)
“Jijé encontrou um truque para atenuar a ausência de roteiro quando Charlier não seguia mais. Ele desenhava três ou quatro pranchas de “Tanguy et Laverdure” inventando ele mesmo o roteiro, depois ele telefonava a Charlier para lhe contar a sequência da história e ele terminava por: “Arranja-te para que a sequência do roteiro cole com aquilo que eu desenhei!” (2)





Mil e um roteiros





No início dos anos cinquenta, Charlier abandona a história em quadrinhos para tornar-se piloto de linha aérea na Sabena. Essa infidelidade não durará um ano. “Desapontado pelo lado “condutor de ônibus” da linha aérea, eu voltei ao jornalismo e à história em quadrinhos, sem cessar de pilotar. (1)”
Os roteiros vão se multiplicar. Citá-los todos ocuparia várias páginas. Ele cria as “Histories de l’Oncle Paul”, que farão amar a História a várias gerações de crianças. Ele conta as biografias de Surcouf, Stanley, Mermoz. Mas esses são seus roteiros de ficção que vão lhe permitir de conquistar definitivamente seu público. Com talentosos desenhistas, esses são verdadeiros clássicos que veem o dia. “Barbe-Rouge” (“Le Démon des Caraïbes”), “Tanguy et Laverdure” (“Les Chevaliers du Ciel”), “Marc Dacier”,



“Jacques Le Gall”, “La Patrouille des Castors”, “Blueberry”, mais alguns episódios de “Valhardi”, “Dan Cooper”, e muitos outros heróis que portam sua marca.
Os roteiros de Jean-Michel Charlier são exemplares. Uma documentação sólida serve de base inabalável às narrativas estofadas a estalar de humor e de reviravoltas. A intriga, particularmente eficaz, mantendo o leitor sem fôlego, de semana em semana, graças a um suspense ao fim de cada página. Seus personagens, bem tipificados têm uma personalidade coerente até em sua menor reação.
Charlier sabia contar uma história. Ele o fazia com talento. É a única razão pela qual milhões de leitores leem suas aventuras depois de tanto tempo. É o grande segredo de seu sucesso.









Goscinny e Charlier vistos Greg

© Dargaud


Morris (“Lucky Luke”)
“Para evitar ser energicamente repreendido por seus editores por causa dos atrasos, ele inventava desculpas complicadas bem como incríveis. Entre as mais esfarrapadas, um dia ele enviou uma carta para explicar que seu roteiro não seria entregue a tempo porque a janela de seu escritório ficara aberta e que uma turbulenta rajada de vento levou todas as folhas. Outra vez, ele estava em um táxi: com pressa para postar uma correspondência, ele saiu do veículo, para se engolfar em uma agência dos correios, deixando o roteiro sobre o banco!
Em me pergunto se ele empregava tanto a imaginação para encontrar as desculpas quanto para escrever suas séries.” (2)



Raríssimo!
Os documentos de trabalho anexados por Charlier ao roteiro de “Secret des Templiers” para Mitacq. Os croquis dão da mão do roteirista.





(1) Depoimentos colhidos por T. Martens em 1966.
(2) Depoimentos colhidos por L. Helen.






















Mitacq
           “Logo no início de “Buck Danny”, quando Charlier desenhava as embarcações e os aviões, ele era obrigado a fazê-lo após seu trabalho, muito tarde da noite. Fora de questão, além do minuto, de ir procurar uma garrafa de nanquim. Ele utilizava, portanto, às escondidas, aquela de Hubinon.
           Quando Hubinon percebeu, ele decidiu emboscar seu amigo. E, na mesma noite, a garrafa de nanquim continha tinta para imprimir sobre tecido.
            No dia seguinte, Charlier se inquietava pelo estado de saúde de seus pincéis, transformados em espanadores...” (3)



AS AVENTURAS DE CHARLIER,
GRANDE REPÓRTER

           Em paralelo a seus prestigiados roteiros de histórias em quadrinhos, Jean-Michel Charlier enceta uma carreira na televisão. É a adaptação de “Les Chevaliers du Ciel” que é o seu clique.
            Ele vai se revelar também corajoso como os seus personagens de papel que ele animava, ameaçando a investigação sobre os assuntos perturbadores da atualidade. Isso serão “Les Dossiers Noirs”. “Quando alguém se encontra face ao assassino de Martin Luther King, ao chefe do FBI ou à secretária de Adolf Hitler, alguém prova o fantástico sentimento de viver levado direto sobre a história de nosso tempo, de compartilhá-la intensamente” (1).
         Recentemente, as emissões “Services Secrets” demonstram aquilo que já se percebeu nas suas narrativas de aventura: “que existe duas histórias dos acontecimentos, aquela oficial contada ao público e a verdadeira, que não tem, frequentemente, nada em comum com a versão oficial (2).”
            Assuntos tão quentes que vão, algumas vezes, lhe custar ameaças provenientes dos verdadeiros assassinos.
           “Isso me parece apaixonante, de abrir os olhos das pessoas sobre coisas que elas ignoram. Ocorre-me descobrir coisas e ter necessidade de explicá-las, de compartilhá-las, mas eu não tenho nenhuma mensagem a emitir.” (2)
            A vida de Jean-Michel Charlier é a ficção que juntou a realidade.





Franquin (“Gaston Lagaffe”)
              “Eu admiro o modo cujo ele se documentava. Seus dossiês eram de tal maneira completos que um dia, a polícia desembarcou na redação. Os policiais queriam saber quem forneceu aos autores de “Buck Danny” os planos de um avião “top secret”. De fato, Charlier se inspirou no modelo em serviço na aviação americana e o desenvolveu a partir de sua imaginação. Ele chegou assim ao mesmo resultado que os engenheiros americanos! Isso valeu a Charlier e Hubinon de se fazer cozinhar durante algumas horas.
            Todo mundo esquece também que Charlier é um grande repórter, ele investiga sobre o assassinato do Presidente Kennedy, sobre a história do petróleo... assuntos nada fáceis. Um dia, nos Estados Unidos, “alguém” lhe disse que sobre Kennedy, “ir mais longe seria perigoso.”
            Ele era um aventureiro vinte e quatro horas sobre vinte e quatro: no trabalho, na sua casa ou no restaurante, ele contava, sem cessar, as histórias.
            Charlier era um cara muito caloroso, que eu não vi assaz frequentemente. Ele era um amigo de qualidade.” (3)














Sirius (“Timour”,...)
           “Charlier tinha um “look descontraído” bem antes que isso tenha entrado nos costumes.
           Ele desembarca, um dia, em camisa leve e sem gravata, no aeroporto de Ankara, Turquia, onde um militar devia acolhê-lo. Ele o vê, sob um cartaz: “Welcome, Mr. Charlier”.
           Ele se dirige rumo ao cara e se apresenta: “I am Mr. Charlier”. Cólera do militar que, em inglês, pede a esse zazou mal vestido ir se vê em outro lugar.
           Sempre relaxado, Charlier insiste: “I am J. M. Charlier”. O militar irascível, injuria esse irritante, o ameaça de um passeio à delegacia...
            Esse é o momento, onde Charlier mostrou-lhe seus papéis, que ele compreendeu que um VIP podia viajar sem gravata.” (3)


Roba (“Boule et Bill”)
           “Eu passei tantos bons momentos em companhia de Charlier...






assinava, assinava, assinava.
           E entre duas assinaturas, eu vi meu Jean-Michel que rabiscava algo ao lado. Adivinhem o quê! Ele fazia roteiro!!!
            É um contador extraordinário e um homem charmoso. Ele mantinha seu auditório sem fôlego. Um dia, no restaurante, todo mundo parou de comer para escutá-lo contar uma história. E nós degustamos um excelente chucrute... morno.” (3)















           Eu me lembro de uma cena que demonstra sua potência de trabalho fenomenal. Nós estávamos em Paris, quando de uma gigantesca sessão de dedicatórias na loja Spirou. Toda a equipe reunida






(1) Conforme uma entrevista realizada por Jean Léturgie e Henri Filippini, Les Cahiers de la BD, Glénat, 1978.
(2) Extrato do ‘dossier de presse’ de “Services secrets”.
(3) Depoimentos colhidos por L. Helen.



Homenagem a Jean-Michel Charlier em “Spirou Magaziiiine” nº 2677, de 2 de agosto de 1989, edição da revista semanal publicada, pela editora Dupuis, logo em seguida ao falecimento, do roteirista, ocorrido em 10 de julho de 1989.

Spirou Magaziiiine © Dupuis 1989

Imagens: Jean-Yves Brouard.

Afrânio Braga


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Jean-Michel Charlier, 30 anos já...

Jean-Michel Charlier, 30 anos já...


O muito grande e saudoso roteirista de histórias em quadrinhos e de telefilmes, Jean-Michel Charlier, faleceu há exatamente 30 anos atrás.

Eis um retrato no Festival de BD d’Angoulême em 1973:

Fotografia: Gérard Guégan.


Eu recordo que, nesse momento, decorre no hebdomadário especializado “Le Marin” uma série de artigos que eu realizei no seriado televisivo “La Mer est grande”, em cujo Jean-Michel Charlier foi o corroteirista; o último artigo está programado no número de 11 de julho de 2019, ou seja, 30 anos e 1 dia após o falecimento do roteirista; eis a primeira da página dupla do hebdomadário:


Nota-se a referência aos 30 anos do falecimento do roteirista, embaixo da 3ª coluna,
e eu falo de JM Charlier em um quadro na página da direita (não mostrada aqui).


À parte esse artigo, eu creio que, infelizmente, as homenagens ao roteirista não são numerosas. Os seus editores parecem tê-lo esquecido... Na Web, o amigo Afrânio Braga publica sua homenagem pessoal, estendida de junho último a dezembro próximo, à razão de um capítulo por mês, em seu site brasileiro consagrado a uma de suas principais série de história em quadrinhos, “Blueberry”. É, aliás, colocado online essa manhã mesmo o segundo capítulo: https://blueberrybr.blogspot.com/2019/07/jean-michel-charlier-et-moi-jean-michel.html com um texto-testemunho exclusivo de Gilles Ratier, jornalista de história em quadrinhos, grande especialista de JM Charlier, sobre o qual ele escreveu uma imponente obra, que faz referência, nas edições Le Castor Astral.

Eu não vou recordar a longa e rica carreira de JM Charlier, levando em conta que eu já a apresentei várias vezes nesse blogue, por exemplo, aqui: http://jybaventures.blogspot.com/2014/10/il-y-90-ans-naissait-jean-michel.html E, evidentemente, no copioso site que eu consagrei a ele: www.jmcharlier.com Sem contar numerosos artigos que eu publiquei aqui e ali, assim como as múltiplas intervenções em fóruns e diversas páginas do Facebook. Assim, eu quero apenas mostrar, dessa vez, algumas imagens pouco conhecidas mostrando JM Charlier, ou mostrando diversos trabalhos, de cujos ele é o autor ou o coautor.


Um documentário sobre uma de suas mais célebres séries de histórias em quadrinhos, “Buck Danny”, colocam em cena os pilotos militares americanos, filmou um verdadeiro piloto da US Air Force lendo um álbum e o comentando – a tradução em francês dos comentários figura embaixo das duas imagens:


Essas imagens foram extraídas da emissão “Les grands maîtres de la BD”, realizada por um amigo próximo de JMC, Georges Grod, para 1e Chaîne em 1981. A HQ que o piloto tem entre suas mãos foi desenhada por Victor Hubinon, o principal desenhista de JM Charlier. O álbum em questão, “Les Tigres volants à la rescousse”, faz parte de uma trilogia que os fãs consideram como uma das melhores histórias da série “Buck Danny” desenhada por Victor Hubinon.


Jean-Michel Charlier era, portanto, roteirista de seriados televisos, como “Les Chevaliers du ciel”, sua mais célebre produção televisiva, mas também, por exemplo, “Le fou du désert”, que conta, em quatro episódios, a vida e a morte misteriosa do explorador Conrad Kilian; eis um extrato do genérico desse seriado inencontrável de nossos dias, incluído no site do Institut National de l’Audiovisuel - INA:


O ator, herói do seriado, é Matthieu Carrière.


Ou “Capitaine Luckner”, série que tinha por título igualmente “Cap sur l’aventure” – isso resume bem o gênero eterno e preferido de Jean-Michel Charlier -; eis algumas imagens desse seriado, de cujo JMC de fato somente escreveu dois episódios dos 13 que foram transmitidos na França, e dos 39 do total que foram transmitidos na Alemanha:



Mas JMC igualmente realizou, a partir de 1975, documentários televisivos no quadro de sua série “Les Dossiers noirs”, com assuntos fortes; por exemplo, aqui, extratos dos episódios consagrados, na ordem de cima para baixo, a Menahem Begin, Al Capone, Edgar Hoover e Eva Braun, a companheira de Adolf Hitler:



Ele mesmo apresentou, em pessoa, seu mais forte documento sobre o assassinato de John Kennedy:


Apresentação em estúdio após o final da retransmissão, em
1983 na FR3, do mesmo documentário já transmitido em 1978.


JMC era igualmente romancista; eis uma ilustração original, devida a René Follet, ilustrando um de seus romances, “Les Samouraïs du soleil noir”, que saiu em seriado na revista “Tintin” em 1958 e 1959:


Ilustração proveniente do dossiê de apresentação do álbum de história em quadrinhos “SOS 
Bagarreur”, de René Follet, com roteiro de Maurice Tillieux, nas edições de l’Elan, 2019.


Eis um documento inédito: a colocação em cores feita a meu pedido, apenas “por diversão”, por Francis Nicole, desenhista e colorista da série de aviação “Missions Kimono”, da primeira prancha daquela que eu considero como uma das melhores histórias de JM Charlier, “Chasse à l’homme”, no seio da excelente, mas infelizmente esquecida, série “Marc Dacier”, publicada na revista “Spirou” a partir do fim dos anos 1950:


Marc Dacier é um jornalista que vive trepidantes aventuras
através do mundo, como o próprio JM Charlier em sua vida real.


E, para findar, a tumba de JM Charlier, no cemitério de Saint-Cloud em região parisiense – as fotografias datam há uma vintena de anos. A escultura, sobre a pedra tumbal, representa um livro aberto, cujas páginas parecem virar ao bel-prazer do vento ou folheadas por uma mão invisível:

Fotografias: Jean-Yves Brouard.

Jean-Yves Brouard

Fonte: Blogue JYB Aventures, 10 de julho de 2019:

Jean-Michel Charlier, 30 ans déjà... © Jean-Yves Brouard – JYB Aventures 2019

Afrânio Braga



domingo, 1 de setembro de 2019

Homenagens a Jean-Michel Charlier em “La Lettre de Dargaud” nº 48

Homenagens a
Jean-Michel Charlier

Ele tinha a imaginação transbordante e o verbo fácil. Esse magnífico contador de histórias nos deixou em 10 de julho de 1989, há precisamente 10 anos... Mas Jean-Michel Charlier era um homem cativante, radiante e de uma curiosidade insaciável. “Para ele a vida não era mais que um jogo extraordinário”, * explicam Christine (sua esposa) e Philippe (seu filho) que zelam, hoje, por esse maravilhoso patrimônio de histórias.

Michel Greg e Jean Giraud retornam nessa comemoração, encetada na precedente “La Lettre”, através de uma carta branca cheia de anedotas e de recordações (página 10) e esse desenho inédito assinado pela mão daquele que foi seu companheiro de estrada em “Blueberry”. Um Jean Giraud que coloca atualmente o toque final no novo álbum de “Blueberry” (“Geronimo l’Apache”) que sairá em outubro pela editora Dargaud.

* Extrato do dossiê especial publicado no integral Barbe Rouge volume 9 Les Révoltés de la Jamaïque.

Um desenho-homenagem de Giraud, próximo convidado
de “La Lettre”, na ocasião da publicação de “Blueberry”.
N. C.: O pensamento do tenente Mike Steve Blueberry:
“Dez anos já! E eu ainda não consigo me habituar!”


 N. C.: Página 10. Carte blanche à Greg – Carta branca a
Greg. Homenagem de Michel Greg a Jean-Michel Charlier.


N. C.: Página 11. Carte blanche à Greg – Carta branca a
Greg. Homenagem de Michel Greg a Jean-Michel Charlier.


Fonte: La Lettre de Dargaud. L’officiel de la bande dessinée. Nº 48, juillet – aout 1999. Dargaud Éditeur, Paris, France.

Hommages à Jean-Michel Charlier © Dargaud Éditeur 1999

Afrânio Braga



domingo, 4 de agosto de 2019

Homenagem a Jean-Michel Charlier em “La Lettre de Dargaud” nº 47



Homenagem a
Jean-Michel Charlier

Criador de Blueberry, Tanguy & Laverdure, Barbe Rouge, etc., etc. Jean-Michel Charlier, o mais belo pirata da história em quadrinhos, faleceu há dez anos, em julho de 1989.

Por Guy Vidal.

Nessa manhã, eu tentarei nadar contra a corrente no rio Tempo. Eu quero remontar dez anos atrás. Para atingir 1989, 10 de julho, data da morte de Jean-Michel Charlier, jornalista, homem da televisão e, sobretudo, roteirista de tantas séries que nos fizeram e nos fazem ainda sonhar. De Blueberry a Tanguy & Laverdure, passando por Barbe Rouge, Buck Danny, Valhardi, La Patrouille des Castors, Marc Dacier, Jacques Le Gall, Guy Lebleu, Jim Cutlass, Les Gringos, La Jeunesse de Blueberry. Mais de 450 roteiros! Passando os rostos de seus amigos, de seus desenhistas (que ele quase enlouquecia, todos, por seus atrasos de entrega): Gillain, Hubinon, Uderzo, Paape, Mitacq, Martial, Poïvet, Giraud, de la Fuente, Gaty, Pellerin, Bergèse, Coutelis, Armand, etc.

Para melhor me lembrar, eu necessitaria de documentação, estar conectado à Internet, sem dúvida. Eu não tenho mais que alguns velhos números de “Pilote”, em cujo ele foi, com René Goscinny, o capitão talentoso de 1959 a 1973.

Era o quê, era como 1989? O muro de Berlim iria cair (em novembro) e Jean-Michel, que sempre foi anticomunista (isso que, em certa época, demandava além uma clarividência não evidente, a coragem certa de se fazer tratar de fascista) e que a História apaixonar-se-ia tanto, não veria esse acontecimento insólito, a queda de um império.

Tudo isso do qual eu me lembro, era que ele fazia bonito sobre o átrio da igreja Saint-Cloud onde se celebrava seu funeral. Isso devia ser na véspera de 14 de julho. À noite, no dia seguinte, a cidade se incendiaria sob um muito belo fogo de artifício.

Philippe Druillet estava lá e, enraivecido, fazia sorrir Louis-Gérard, exigindo para si mesmo, o dia vindo: “Um caixão sem alça, para fazer cocô!” Nós fomos com Jacques Lob. Doente, Jacques deveria morrer quase exatamente um ano depois. Hoje, todos aqueles que o conheceram consideram que sua filha, Léonie Lob, tem um verdadeiro talento de cantora.

Em meu nado impossível, eu penso no livro autobiográfico de Jean Giraud, recentemente publicado, onde ele fala de Charlier. Eu não sou de acordo com a maneira cuja ele o vê. Para mim, Charlier – muito belo rapaz nascido em Liège, em 1924, tornar-se, com o tempo, ligeiramente “envelopado” à la maneira sedutora de um Hugo Pratt – teve êxito, apesar do porte da gravata e da leitura de Le Figaro, em tornar-se ao máximo aquilo que se deve poder chamar de “homem livre”.


N. C.: Integrais “Barbe Rouge” volume 9 a publicar em junho
de 1999, “Tanguy et Laverdure” em julho do mesmo ano.


“Diga-me, Michel, se um dia tu não tiveres mais trabalho, o quê é que tu farias?”

“- Oh! Eu me tornaria guia de turismo no México!” E ele explodia de rir.

Eu penso em Christine, sua mulher, tão sensível, em Philippe, seu filho, que se parece tanto com ele. Os dois vigiam essa milagrosa herança de palavras, de imaginário. Na fotografia desbotada, há, sem dúvida, também a silhueta de uma menina, que deve ser, no presente, uma moça. Só ela poderia incomodá-lo quando ele estava em frente à sua máquina de escrever.

Eu sei que sou censurado, frequentemente, de ser o senhor-da-HQ-que-acha-que-todo-o-mundo-é-belo-é-gentil. Isso não é de todo um fato verdadeiro, mas... ...quase. Isso é devido ao fato que eu tenho tendência desde muito tempo em nos ver todos naufragados de alguma forma agarrados às boias de vento. Eu escrevi a ele, uma vez, em Forest (olha!). Ele me respondeu que não: ele não se sentia de todo assim. Demais orgulhoso? Charlier o admitia mais facilmente, mas isso o fazia rir. Dele, frequentemente. Das situações engraçadas da vida de todos os dias. Eu nunca o ouvi rir, maldosamente, do quê quer que seja.

Jean-Michel amava as palavras, amava inventar as histórias, amava as pessoas, a boa comida, a amizade, as viagens, a pintura, certa música, os desenhos de seus companheiros, o amor e as brincadeiras de colegial. Foi um magnífico bon vivant que, de um gesto, de um riso, vos convida fraternalmente a compartilhar o banquete.

Eu cheguei a perguntar-lhe: “Tu estás contente com tua vida, Jean-Michel?” e ele me respondeu: “Sim. Eu queria conhecer o mundo. Restam-me ainda algumas coisas por ver, mas, bom, no conjunto, eu fiz aquilo que eu queria.”.

Nesse verão, para saudar o 10º aniversário de seu falecimento, Dargaud Éditeur publica duas compilações especiais, uma de Barbe Rouge (em junho), suas últimas histórias, a outra de Tanguy & Laverdure (em julho). Esses dois volumes são completados pelo rápido sobrevoo de sua vida, um texto que eu escrevi, em 1995, para acompanhar uma exposição, consagrada a ele, em Angoulême. Leiam-no. Vocês verão, mesmo se o retrato não está completamente bem sucedido, a qual ponto o mais belo pirata da história em quadrinhos franco-belga era cativante.

E em seguida, sobretudo, leiam as histórias que ele escreveu (e que felizmente Giraud, Bérgese, Rossi, Bourgne, Perrissin, Corteggiani, Blanc-Dumont continuam). Vocês verão ali, sobretudo, quanto a aventura é bela quando ela é contada por Jean-Michel Charlier. Como um fogo de artifício...


N. C.: Jimmy McClure e Mike Blueberry por Jean Giraud.


Fonte: La Lettre de Dargaud. L’officiel de la bande dessinée. Nº 47, mai – juin 1999. Dargaud Éditeur, Paris, France.

Hommage à Jean-Michel Charlier © Guy Vidal – Dargaud Éditeur 1999

Afrânio Braga



quarta-feira, 10 de julho de 2019

Jean-Michel Charlier et moi – Jean-Michel Charlier e eu

Jean-Michel Charlier


JEAN-MICHEL CHARLIER ET MOI

C’est par l’intermédiaire de l’album « Fort Navajo », une aventure du lieutenant Blueberry dessinée par Jean Giraud, que s’établit mon premier contact avec Jean-Michel Charlier. Ce devait être en 1968, pendant l’été, car j’étais en colonie de vacances… J’avais donc dix ans. Ce fut un véritable choc ! Certes, j’avais bien lu d’autres bandes dessinées avant — ma grand-mère m’avait abonné à Vaillant (le journal de Pif, qui allait devenir Pif-gadget peu de temps après), puis au Journal de Spirou, et j’avais également dévoré plusieurs albums de « Tintin » —, mais avec cet album de la collection Pilote, je passais dans une autre dimension : je basculais dans le monde de l’aventure avec un grand A, dans un monde bien plus adulte !

Devenu l’animateur d’un fanzine qui eut son heure de gloire (Dommage, prix fanzine à Angoulême en 1983), je fréquentais assidûment les salons de bandes dessinées et j’aperçu souvent, au détour d’un stand, la silhouette si particulière, un peu à la Orson Welles, de cet immense scénariste, cigare en bouche : et oui, à cette époque-là, on fumait encore dans les lieux publics ! Déjà, de nombreuses légendes couraient sur lui dans le milieu : on y parlait de ses facultés incroyables d’imagination, de ses talents de conteur (il était capable de captiver toute une assemblée dès qu’il ouvrait la bouche), de ses combats avec les éditeurs pour défendre les droits des auteurs, mais aussi de ses retards pour fournir la suite des récits qu’il écrivait et des excuses incroyables qu’il inventait pour s’en justifier.

C’est grâce au regretté François Defaye que je vais, enfin, rencontrer pour de bon, celui que l’on surnommera plus tard l’Alexandre Dumas de la bande dessinée. Contacté par le CNBDI (ancêtre de la Cité de l’image d’Angoulême), François va être chargé, en 1987, de la conception d’une vidéo sur Jean-Michel Charlier dont une version remaniée passera sur la 7, en 1989. Pour ce faire, il me propose de collaborer sur ce projet, car il connaît ma passion pour l’œuvre de ce grand scénariste : je vais alors conduire l’intégralité de l’interview et passer trois jours formidables en compagnie de Jean-Michel, dans son appartement de Saint-Cloud, aux éditions Dargaud, au Bourget et dans l’atelier de montage de ses documentaires pour la télévision. Je ne pourrais alors que confirmer son incroyable capacité à raconter, captivant tous ceux qui avaient la chance de l’écouter. Je retranscrirai ensuite l’intégralité de ces entrevues pour le n° 44 de la revue spécialisée Hop ! qui lui a été entièrement consacré, au troisième trimestre 1988…

Or, un jour, François Defaye devient directeur artistique et des programmes du Festival international de la bande dessinée d’Angoulême (de juillet 1991 à mai 1998). Il reprend contact avec moi et me charge de l’écriture des communiqués de presse et autres rédactionnels de cet événement, ainsi que du commissariat de nombreuses expositions : Hermann, European Comics : Another Image, Les 50 ans du Lombard, André Juillard, Peyo, Le Cycle de Cyann, Planètes BD… Et une, très importante, consacrée à Jean-Michel Charlier, en 1995. C’est ainsi que je participe à l’ouvrage de Guy Vidal « Jean-Michel Charlier : un réacteur sous la plume » (aux éditions Dargaud), biographie de l’auteur qui sert, alors, de catalogue à l’expo et à laquelle je fournis la bibliographie, documentation et information.

Après diverses autres expériences et déconvenues professionnelles, François Defaye décidera de monter sa propre maison d’édition, en 2005 : Sangam. On se retrouve pour l’occasion, car il veut rééditer mon livre sur l’histoire de la BD francophone vue par les scénaristes : « Avant la case », publié à l’origine chez PLG, en 2002.

Il me demande aussi de lui proposer des projets. Il se trouve que j’en avais deux : une « Anthologie de la bande dessinée européenne » (projet coûteux qui ne vit jamais le jour, alors que j’avais l’assurance de la participation d’excellents professionnels comme Patrick Gaumer, Didier Quella-Guyot ou Laurent Turpin) et une collection qui reprendrait les œuvres oubliées de Jean-Michel Charlier dans des tirages limités à 1 000 exemplaires, destinés surtout aux collectionneurs. Dans un premier temps, je lui propose de rééditer « Clairette » avec Albert Uderzo, « Kim Devil » avec Gérald Forton, « Guy Lebleu » avec Raymond Poïvet, « Thierry le chevalier » avec Carlos Laffond, « Michel Brazier » avec André Chéret, « Simba Lee » avec Herbert, « Marc Dacier », « André Lefort + Ned Tiger » et « Jean Valhardi » avec Eddy Paape. À l’exception de ceux dessinés par Paape (les discussions avec l’ayant droit n’ayant pas abouti), tous ces projets finiront par voir le jour, que ce soit chez Sangam pour les trois premiers ou chez Fordis qui a repris, avec brio, la Collection Jean-Michel Charlier, en 2015.

François Defaye connaît bien Philippe Charlier, le fils de Jean-Michel, et s’enthousiasme sur ma proposition. Il contacte rapidement l’ayant droit et l’affaire est aussitôt faite : Philippe Charlier se trouvant en confiance avec François et même avec moi, car il avait apprécié mon travail dans Hop ! et sur l’expo consacrée à son père à Angoulême (expo qui avait même été remontée au salon du Bourget). Le premier volume (« Clairette ») paraît en 2009 et je suis bombardé responsable de la collection, proposant les séries à rééditer et écrivant les textes de présentation. Coup de bol, le maquettiste choisi par François, l’excellent Philippe Poirier, est aussi un amateur de l’œuvre de Charlier et nous sommes tous sur la même longueur d’onde. Seulement, voilà, François veut se passer de diffuseur (les ouvrages seront donc peu exposés en librairies) et même si tout se vend – du moins pour le « Clairette » et les 3 premiers « Kim Devil » —, les ouvrages ne sont pas proposés assez chers pour payer tout le monde et, surtout, pour libérer un salaire décent à l’éditeur.

Pourtant, les idées ne manquent pas, comme cette superbe exposition sur notre scénariste favori que nous monterons et mettrons en scène pour le festival de Chambéry. Philippe Poirier en est le concepteur graphique, François Defaye le producteur exécutif, et j’en écris tous les textes et choisis les documents sous la houlette bienveillante de Philippe Charlier. Quoi qu’il en soit, François décède malheureusement le 4 mai 2013, victime d’une crise cardiaque, à l’âge de 56 ans, alors qu’il s’était associé avec la maison d’édition littéraire bordelaise Le Castor astral, depuis 2012 ; notamment pour poursuivre la Collection Jean-Michel Charlier et publier une biographie exhaustive de notre Alexandre Dumas du 9e art dont il m’avait chargé de la rédaction, toujours avec l’aval de Philippe Charlier. Tiré à 2 000 exemplaires par Le Castor astral, cet imposant ouvrage, très illustré (et fort bien maquetté par Philippe Poirier), rencontrera son public et restera la référence en ce domaine.

En ce moment de la célébration du trentième anniversaire du décès de Jean-Michel Charlier, je ne peux m’empêcher de penser à la réponse que ce dernier me donna, en 1987, en conclusion de ma longue interview réalisée pour le documentaire filmé réalisé par le CNBDI : « Chaque fois que j’ai une nouvelle idée, j’ai tout de suite envie de la concrétiser par une bande dessinée, par un grand reportage, ou par un film pour la télévision. Je crois que c’est une façon de rester jeune jusqu’à un certain point. Ce qui fait que, tout en modérant quand même mes activités, car je commence à me sentir un peu fatigué, je pense que je continuerai à produire, si le ciel le veut bien évidemment, et tant que la machine tiendra bon ! J’espère seulement, comme disent les Américains, mourir un jour debout dans mes bottes ! » Je ne pensais vraiment pas, à ce moment-là, que ce jour viendrait si rapidement…

Gilles RATIER


Gilles Ratier


JEAN-MICHEL CHARLIER E EU

Foi pelo intermédio do álbum «Forte Navajo», uma aventura do tenente Blueberry desenhada por Jean Giraud, que se estabeleceu o meu primeiro contato com Jean-Michel Charlier. Isso devia ser em 1968, durante o verão, porque eu estava em colônia de férias. Eu tinha então dez anos. Aquilo foi um verdadeiro choque! Certamente, eu li muitas outras histórias em quadrinhos antes – minha avó assinou para mim Vaillant (le journal de Pif, que iria se tornar Pif-gadget pouco tempo depois), em seguida Journal de Spirou, e eu devorei igualmente vários álbuns de «Tintin» - mas com esse álbum da coleção Pilote, eu passei a outra dimensão: eu oscilava no mundo da aventura com um grande A, em um mundo bem mais adulto!

Tornado o animador de um fanzine que teve sua hora de glória (Dommage, prêmio fanzine em Angoulême em 1983), eu frequentei assiduamente os salões de histórias em quadrinhos e eu percebi, frequentemente, ao rodeio de um stand, a silhueta particular, um pouco à la Orson Welles, daquele imenso roteirista, charuto na boca: e sim, naquela época, se fumava ainda em locais públicos! Já, numerosas lendas corriam sobre ele no meio: se falava de suas faculdades incríveis de imaginação, de seus talentos de contador de histórias (ele era capaz de cativar toda uma assembleia desde que ele abria a boca), de seus combates com os editores para defender os direitos dos autores, mas também de seus atrasos para fornecer a sequência das narrativas que ele escrevia e das desculpas incríveis que ele inventava para se justificar.

Foi graças ao saudoso François Defaye que eu iria, enfim, encontrar, realmente, aquele que se apelidará, mais tarde, o Alexandre Dumas da história em quadrinhos. Contatado pela CNBDI (ancestral da Cité de l’image d’Angoulême), François vai ser encarregado, em 1987, da concepção de um vídeo sobre Jean-Michel Charlier, de cujo uma versão remanejada passará no 7, em 1989. Para fazer aquilo, ele me propôs de colaborar naquele projeto, pois ele conhecia minha paixão pela obra daquele grande roteirista: eu iria então conduzir a integralidade da entrevista e passar três dias formidáveis em companhia de Jean-Michel, em seu apartamento de Saint-Cloud, nas edições Dargaud, em Le Bourget, e no ateliê de montagem de seus documentários para a televisão. Eu poderia então confirmar sua incrível capacidade de contar, apaixonando todos aqueles que tinham a sorte de escutá-lo. Eu retranscreveria em seguida a integralidade daquelas entrevistas para o nº 44 da revista especializa Hop ! que a ele foi inteiramente consagrada, no terceiro trimestre de 1988...

Ora, um dia, François Defaye se tornou diretor artístico e dos programas do Festival international de la bande dessinée d’Angoulême (de julho de 1991 a maio de 1998). Ele retoma contato comigo e me encarrega da escritura dos comunicados de imprensa e outros redacionais daquele evento, assim como do comissariado de numerosas exposições: Hermann, European Comics : Another Image, Les 50 ans du Lombard, André Juillard, Peyo, Le Cycle de Cyann, Planètes BD… E uma, muito importante , consagrada a Jean-Michel Charlier, em 1995. Foi assim que eu participei da obra de Guy Vidal «Jean-Michel Charlier. Un réacteur sous la plume» (nas edições Dargaud), biografia do autor que serve, então, de catálogo na exposição e a qual eu forneci a bibliografia, documentação e informação.

Após diversas outras experiências e decepções profissionais, François Defaye decidirá montar sua própria editora, em 2005: Sangam. Nós nos encontramos para a ocasião, pois ele queria reeditar meu livro sobre a história da HQ francófona vista pelos roteiristas: «Avant la case», publicado originalmente pela PLG, em 2002.

Ele também me pediu para propor-lhe projetos. Aconteceu que eu tinha dois: uma «Anthologie de la bande dessinée européenne» (projeto custoso que nunca viu a luz, então que eu tinha seguro a participação de excelentes profissionais como Patrick Gaumer, Didier Quella-Guyot e Laurent Turpin) e uma coleção que retomaria as obras esquecidas de Jean-Michel Charlier em tiragens limitadas a 1000 exemplares, destinadas, sobretudo, aos colecionadores. Em primeiro lugar, eu propus a ele reeditar «Clairette» com Albert Uderzo, «Kim Devil» com Gérald Forton, «Guy Lebleu» com Raymond Poïvet, «Thierry le chevalier» com Carlos Laffond, «Michel Brazier» com André Chéret, «Simba Lee» com Herbert, «Marc Dacier», «André Lefort + Ned Tiger» et «Jean Valhardi» com Eddy Paape. À exceção daquelas desenhadas por Paape (as discussões com o detentor dos direitos autorais não tiveram êxito), todos esses projetos findaram por ver a luz, quer seja em Sangam, para as três primeiras, ou em Fordis que retomou, com brio, a Collection Jean-Michel Charlier, em 2015.

François Defaye conhece bem Philippe Charlier, o filho de Jean-Michel, e se entusiasma sobre minha proposta. Ele contata rapidamente o detentor dos direitos autorais e, imediatamente, o negócio é feito: Philippe Charlier encontra-se em confiança com François e mesmo comigo, pois ele apreciou meu trabalho em Hop ! e sobre a exposição consagrada a seu pai em Angoulême (exposição que havia até mesmo sido remontada no salão de Bourget). O primeiro volume («Clairette») aparece em 2009 e eu sou, bombardeado, responsável da coleção, propondo as séries a reeditar e escrevendo os textos de apresentação. Golpe de sorte, o diagramador escolhido por François, o excelente Philippe Poirier, é também um amante da obra de Charlier e nós somos todos sobre o mesmo comprimento de onda. Somente, aqui, François quis se passar de difusor (as obras serão então pouco expostas em livrarias) e mesmo se tudo se vende – pelo menos para «Clairette» e os três primeiros «Kim Devil» -, as obras não são propostas bastante caras para pagar todo mundo e, sobretudo, para liberar um salário decente ao editor.

Portanto, as ideias não faltaram, como aquela soberba exposição sobre nosso roteirista favorito que nós montamos e colocamos em cena para o festival de Chambéry. Philippe Poirier foi o conceptor gráfico, François Defaye o produtor executivo e eu escrevi os textos e escolhi os documentos sob o cajado benevolente de Philippe Charlier. O quê quer que seja, François falece, infelizmente, em 4 de maio de 2013, vítima de uma crise cardíaca, à idade de 56 anos, enquanto ele estava associado com a editora literária bordalesa Le Castor Astral, desde 2012; particularmente para prosseguir a Collection Jean-Michel Charlier e publicar uma biografia exaustiva de nosso Alexandre Dumas da 9ª arte, em cuja ele me encarregou da redação, sempre com o aval de Philippe Charlier. Impressa em 2000 exemplares por Le Castor Astral, essa imponente obra, muito ilustrada (e muito bem diagramada por Philippe Poirier), encontrará seu público e ficará a referência nesse domínio.

         Nesse momento da celebração do trigésimo aniversário do falecimento de Jean-Michel Charlier, eu não posso me impedir de pensar na resposta que ele me deu, em 1987, na conclusão de minha longa entrevista realizada para o documentário filmado realizado pela CNBDI: «Cada vez que eu tenho uma nova ideia, eu imediatamente desejo concretizá-la por uma história em quadrinhos, por uma grande reportagem, ou por um filme para a televisão. Eu creio que é um modo de ficar jovem até certo ponto. Isso que faz que, em tudo moderando assim mesmo minhas atividades, pois eu começo a me sentir um pouco fadigado, eu penso que eu continuarei a produzir, se o céu o quiser bem evidentemente, e enquanto a máquina se mantiver boa! Eu espero somente, como dizem os americanos, morrer um dia em pé em minhas botas!» Eu não pensei verdadeiramente, naquele momento, que aquele dia viria tão rapidamente...

Gilles Ratier


Imagens: 1) Jean-Michel Charlier: extrato da divulgação do livro “Jean-Michel Charlier vous raconte...” pela editora Le Castor Astral. 2) Gilles Ratier: fotografia do escritor com “Jean-Michel Charlier vous raconte...”, livro de sua autoria – arquivo pessoal. 3) Logomarca da homenagem do blogue Blueberry a Jean-Michel Charlier por ocasião dos 30 anos de sua morte (1989 – 2019).

Jean-Michel Charlier et moi © Gilles Ratier 2019


Un grand merci à Gilles Ratier pour le texte, exclusif pour le blog Blueberry, en hommage à Jean-Michel Charlier, l’Alexandre Dumas de la bande dessinée, pour occasion des 30 années du son décès.

Um grande agradecimento a Gilles Ratier pelo texto, exclusivo para o blogue Blueberry, em homenagem a Jean-Michel Charlier, o Alexandre Dumas da história em quadrinhos, por ocasião dos 30 anos do seu falecimento.

Afrânio Braga